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Conheça Vila Bela da Santíssima Trindade

14/12/2017   15:30

 

Primeira Capital do Mato Grosso, Vila Bela desponta como uma região de infinitas belezas naturais e apresenta grande potencial turístico, ainda pouco explorado

 

Estima-se que exista, na região de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), mais de 100 cachoeiras e quedas d’água. Destas, cerca de 30 já foram visitadas pelos moradores e aventureiros da região, as demais ainda continuam intocáveis.

 

Apesar das inúmeras belezas naturais e seu perfil histórico, Vila Bela foi a primeira capital do estado de Mato Grosso, o turismo continua tímido na região. À disposição dos visitantes, existem cinco pequenos hotéis e poucos restaurantes. O forte mesmo do lugar é a sua natureza inigualável e peculiar, que de uns anos pra cá tem atraído muitos turistas, principalmente rondonienses.

 

Vila Bela reúne três dos mais importantes biomas brasileiros: Floresta Amazônica, Cerrado e Pantanal. Além de mais de uma centena de cachoeiras, a pequena cidade, com um pouco mais de 16 mil habitantes, é cortada pelo Rio Guaporé, o mesmo que em Rondônia já se tornou famoso pelo turismo de pesca. Vem daí o interesse cada vez maior de tantos turistas que procuram Vila Bela

 

 

Um pouco de história

 

Nada melhor do que conhecer a história de Vila Bela da Santíssima Trindade através daqueles que fazem parte dela. Dona Nemézia Profeta, uma senhora de 75 anos, é descendente dos escravos que foram trazidos à região para garantir a segurança das fronteiras brasileiras. Na fronteira com a Bolívia, Vila Bela surgiu em 1752 e foi toda construída através do trabalho de escravos trazidos de países como Moçambique e Congo. Dona Nemézia acredita ser da quinta geração destes escravos.

 

“Meu pai era contador de estórias, sempre teve o hábito de reunir todos e contar os causos da vida. Além disso, ele lia muito e sempre foi passando as estórias de geração em geração”. O pai de dona Nemézia foi Joaquim Marcelo Profeta da Cruz (1910 – 1987). Além de comerciante e produtor rural, seu Joaquim foi líder comunitário e um dos primeiros prefeitos negros nomeados de Vila Bela da Santíssima Trindade. As histórias contadas por seu Joaquim, hoje são repassadas também por dona Nemézia.

 

Entre as histórias contadas de pai pra filha, está a ocupação de Vila Bela e o abandono dos escravos. “O nosso grupo de negros estava sob o domínio de Portugal. Fomos trazidos para o Brasil exclusivamente para construir Vila Bela. Depois disso, mesmo antes da abolição da escravatura, nossos negros já haviam sido abandonados aqui em Vila Bela. Simplesmente abandonaram os negros aqui, que ficaram para serem devorados pela floresta. Mas os negros deram a volta por cima e começaram a viver da floresta e dos rios. Criaram roças, tudo era compartilhado entre todas as famílias. O Rio Guaporé foi fundamental para a nossa sobrevivência”, enalteceu.

 

A descoberta de riquezas minerais na região do Rio Guaporé fez com que Portugal se apressasse em povoá-la, como forma de proteger suas fronteiras. Com isso, em 1748 foi criada a Capitania de Mato Grosso, sendo Vila Bela da Santíssima Trindade instalada como a sua capital em 1752. Nesse período, o lugar teve um grande progresso e atraiu grandes investimentos em infraestrutura, o que foi atraindo muitos novos moradores para a região. Contudo, diversas dificuldades, entre elas a distância, doenças e a ausência de rotas comerciais, somado ao fortalecimento de Cuiabá como um importante centro comercial, forçaram a transferência da capital. Foi nesta fase que os moradores abandonaram completamente a região, deixando tudo para trás, inclusive os escravos que ficaram à mercê da própria sorte.

 

De acordo com dona Nemézia, foi a partir do abandono dos escravos que muitos optaram por “descer” o Rio Guaporé. “Largaram aqui umas cinco famílias de escravos, eram mais de 200 pessoas. Com a riqueza do Rio Guaporé, alguns resolveram descer o rio e com isso foram surgindo os quilombos ao longo do Guaporé. Se você for ver os quilombos em Rondônia, todos surgiram a partir dos negros que saíram de Vila Bela da Santíssima Trindade”.

 

Vila Bela voltou a receber atenção apenas na década de 1930, quando voltou à categoria de cidade e líderes da comunidade começaram a ocupar cargos políticos. Das famílias descendentes de escravos que permaneceram em Vila Bela, as maiores hoje são as famílias da dona Nemézia, Profeta da Cruz, e ainda as famílias Ferreira Coelho, Fernandes Leite, Britos e Oliveira.

 

Como conta hoje dona Nemézia, outra história passada de geração em geração foi a presença do Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon em Vila Bela. “Meu pai sempre foi muito estudioso, estudava por conta própria, mas ele fez questão de botar os filhos para estudar, apesar das dificuldades da época. Éramos em nove irmãos e íamos todos estudar em Cáceres, pois Pontes e Lacerda era apenas um posto da Linha Telegráfica. Rondon foi muito importante pra nossa região, pois ajudou a desenvolver tudo aqui. Ele era um homem muito severo e bravo, mas era valente e muito inteligente. Quando Rondon passou por aqui para inaugurar as linhas telegráficas, ele convidou todos os negros para participarem da festa. Ele respeitava a todos e defendia, principalmente as negras. Pois os homens que acompanhavam Rondon queriam fazer mal pra elas, queriam se aproveitar, mas Rondon nunca deixou, ele era rigoroso e por isso sempre teve o respeito de toda a comunidade”, conta dona Nemézia Profeta.

 

Sobre a Igreja Católica construída em 1752, dona Nemézia lamenta o abandono. “Essa igreja não teve muita vida útil. Houve celebrações, batismos, casamentos, mas não durou muito. Em 1910, por apresentar riscos, o bispo mandou remover todo o telhado e a partir daí a igreja foi se deteriorando. Demoraram muito para dar atenção novamente à igreja e hoje o que temos é muito pouco, não sobrou quase nada das ruínas”. A Matriz da Santíssima Trindade foi construída através da mão de obra dos escravos. Em estilo Barroco, a igreja foi edificada em adobe cru e pedra canga. Suas ruínas são hoje um importante catão postal, localizado no centro de Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

A igreja é um dos marcos da ocupação da região e reflete a realidade vivida pelos escravos. De acordo com dona Nemézia, os negros precisaram deixar de lado suas raízes africanas para seguir o catolicismo. “Aqui os negros sempre foram obrigados a serem católicos. Não podiam seguir outras religiões. Por isso que hoje a maioria dos negros aqui em Vila Bela continua seguindo o catolicismo. Precisou passar muitos anos para que a influência africana começasse a se tornar mais nítida. Conforme fomos tendo mais liberdade, passamos a inserir a cultura africana nas nossas vivências, como a Dança do Congo e a Dança do Chorado”, explica.

 

Mesmo sendo católica, dona Nemézia faz questão de dizer que em Vila Bela todas as religiões vivem em harmonia, sendo respeitadas por todos. “A partir da década de 1960 outras religiões foram se estabelecendo em Vila Bela. No início houve resistência, pois até então o catolicismo era a única religião conhecida aqui, mas aos poucos as demais foram sendo aceitas. Eu, mesmo sendo criada no catolicismo, vivencio as outras religiões, como o Candomblé. Pois é algo presente no nosso dia-a-dia e na vivência em comunidade. Além disso, todas as religiões contribuem para tentar melhorar a vida das pessoas, fazer o bem ao próximo, dar um sentido à vida. Quem tem uma religião, independente de qual for, busca um ser supremo, busca fazer o bem. Através de um Deus, a gente busca suavizar os males da terra”, concluiu dona Nemézia.

 

Entre os símbolos da religião e cultura africanas, Vila Bela é hoje bastante procurada durante os festejos da Dança do Congo e Dança do Chorado. O Congo é um dos muitos conjuntos de danças, músicas e manifestações folclóricas trazidos pelos escravos ao Brasil. A Dança do Congo simboliza a luta entre os reinados negros. Já a Dança do Chorado era feita pelas mães e esposas de prisioneiros para tentar amenizar o sofrimento e trazer um pouco de descontração em meio à dor. As apresentações da Dança do Chorado são feitas com um lenço no pescoço e uma garrafa de Kanjinjim na cabeça. O Kanjinjim, por sua vez, se tornou um grande símbolo de Vila Bela. É quase improvável um visitante sair de Vila Bela sem levar consigo pelo menos uma garrafa desta famosa bebida de origem africana. À base de cachaça, o Kanjinjim é composto ainda de mel de abelha, gengibre, cravo, canela, erva doce, raízes e outros ingredientes secretos que são guardados a sete chaves pelas mulheres que produzem de forma artesanal a bebida típica de Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

 

Turismo em Vila Bela

 

Se a história de Vila Bela veio da conversa com Dona Nemézia, o perfil do turismo vem retratado a partir da visão daqueles que começam a ver no turismo o grande potencial para desenvolver a região.

 

José Luiz de Barros, de 53 anos, chegou em Vila Bela da Santíssima Trindade em 1989. Paranaense, José Luiz morava em Pontes e Lacerda quando começou a acompanhar o interesse de fazendeiros pela região às margens do Rio Guaporé. Ao visitar Vila Bela, observou que a infraestrutura era pouca e concluiu que ali teria chances maiores de alavancar seu comércio, voltado para a venda e mecânica de motosserras.

 

“A infraestrutura e oferta de serviços era muito fraca e a quantidade de fazendeiros que vinham para a região era muito grande. Eles vinham pra derrubar a floresta e plantar pasto, pra criar o gado. Foi aí que eu montei aqui uma empresa de venda e assistência técnica de motosserra, destacou.

 

Por muito tempo José Luiz trabalhou apenas nesta área, mas há 10 anos ele resolveu ir também de um extremo ao outro. “Eu mantenho o meu comércio, preciso dele, mas agora, nos finais de semana, trabalho como guia turístico. Vila Bela tem um potencial muito forte para o turismo e estamos nos organizando para aproveitar isso da melhor forma, de maneira sustentável e que valorize as belezas naturais do local”.

 

Junto com outros guias, José Luiz está empenhado na fundação de uma associação voltada para essa atividade. “O turismo aqui ganhou força de uns anos pra cá, mas por enquanto o turista vem por conta própria. Ainda temos uma rede hoteleira pequena e muitas vezes os turistas precisam ficar em Pontes e Lacerda. Temos um grande potencial, mas pouco explorado, por isso queremos nos organizar para aproveitarmos melhor o que temos a nossa disposição. A associação vai nos dar força para podermos cobrar junto ao governo e as autoridades uma atenção maior pra Vila Bela”, garante.

 

Explorar o turismo de pesca no Rio Guaporé, o turismo folclórico, histórico e aproveitar melhor as riquezas da região estão entre os planos. “Dizem que aqui em Vila Bela tem mais de 100 cachoeiras! Eu já visitei umas 30 e sei que tem mais porque do alto dos cânions e das montanhas a gente consegue ver um monte de cachoeiras que ainda não visitamos. Precisamos criar uma infraestrutura para que o acesso às cachoeiras seja mais facilitado”.

 

Entre as cachoeiras mais visitadas pelos turistas em Vila Bela da Santíssima Trindade estão a Cachoeira dos Namorados, Cachoeirinha, Poço Azul, Cascata do Capivari e ainda a cachoeira mais alta do estado do Mato Grosso e uma das mais altas do Brasil, a Cachoeira do Jatobá. Com uma queda d’água de mais de 240 metros, o acesso ao cânion da Cachoeira do Jatobá requer muita força de vontade dos turistas. São mais de cinco quilômetros de caminhada morro acima e, claro, mais cinco quilômetros morro abaixo para voltar para o ponto de partida. Com algumas paradinhas para admirar as belezas peculiares do lugar, o que inclui uma pausa no cânion da Cachoeira do Macaco, é possível recuperar o fôlego e seguir firme no trajeto completo. Ao todo, o percurso de ida e volta, leva mais de cinco horas de caminhada. Um esforço que vale muito a pena!

 

Além disso, na mescla de três biomas brasileiros: Floresta Amazônica, Cerrado e Pantanal, centenas de espécies de animais enriquecem Vila Bela da Santíssima Trindade. De acordo com o guia José Luiz, a região conta com a presença de onças, pintada e parda, tamanduás, jaguatirica, lobo guará, cachorro do mato, anta, capivara, ariranha, tucano, araras, ema, garças, tuiuiú, jararaca, sucuri, jiboia, jacarés e boto cor-de-rosa. “Temos riqueza de vida e natureza em Vila Bela”, concluiu o guia.

 

O jovem Lucas Macedo também trabalha como guia em Vila Bela, além de ajudar sua mãe na administração de um pequeno hotel. Formado em Engenharia Petrolífera, na Bolívia, Lucas está de volta à Vila Bela desde 2010. Por semana, o guia chega a acompanhar turistas em mais de quatro trilhas pelas montanhas e cânions da região.

 

“A Cachoeira do Jatobá, apesar de ser uma trilha mais difícil, é muito procurada, pois temos nela a maior cachoeira do estado do Mato Grosso. Em alguns rankings nacionais ela aparece como a quinta maior cachoeira do Brasil e até como a quarta maior. Por isso o interesse por ela é alto”, destacou Lucas.

 

Assim como José Luiz, Lucas garante que o turismo em Vila Bela tem aumentado gradativamente de uns cinco anos pra cá. “Aos poucos Vila Bela da Santíssima Trindade tem ganhado destaque. O governo tem desenvolvido algumas ações que contribuem para esse desenvolvimento. De uns anos pra cá, no dia do aniversário da cidade, Vila Bela se torna a capital do estado por um dia devido ao passado histórico do lugar. E nesse dia, Vila Bela se torna destaque em todo o estado do Mato Grosso. É uma chance de mostrarmos nosso potencial”.

 

Depois dos mato-grossenses, Lucas confirma que são os rondonienses os que mais procuram e visitam o lugar. “Quase sempre tem alguém de Rondônia aqui em Vila Bela. Pode ser pela proximidade dos dois estados, mas eu entendo também que muita gente vem pra cá pela fama do Rio Guaporé. É um rio muito valorizado em Rondônia”.

 

De acordo com o guia Lucas Macedo, Vila Bela da Santíssima Trindade recebe o maior número de turistas entre os meses de janeiro a maio, quando acontecem importantes festejos e manifestações folclóricas. Além disso, é nessa época que as cachoeiras estão com maior vasão de água. A cidade está a 562 quilômetros de Cuiabá e distante 71 quilômetros, a Norte-Oeste, de Pontes e Lacerda. O acesso é feito pela rodovia BR-174.

 Entre os lugares mais visitados, está o Poço Azul. Com águas transparentes, o poço é ladeado por cânions

A Cachoeira do Jatobá é a mais alto do estado do Mato Grosso, com 248 metros de altura

 Do alto do Cânion do Jatobá, em uma altitude de mais de 600 metros acima do nível do mar, a paisagem é de tirar o fôlego

 

 

 

 

 

Por: Giliane Perin

 

 

 


 
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